DOMINGO V DA QUARESMA
L 1 Is 43, 16-21; Sl 125 (126), 1-2ab. 2cd-3. 4-5. 6
L 2 Flp 3, 8-14
Ev Jo 8, 1-11
No nosso caminho para a Páscoa, somos convidados à conversão de vida, sempre apoiados na misericórdia de Deus. É a misericórdia de Deus que nos revela a entrega de Jesus Cristo por nós, da qual brotam novos caminhos de vida, como nos anuncia o próprio Jesus, transformando desertos em trilhos de esperança e renovação. A misericórdia é marca distintiva dos santos, que são precisamente aqueles homens e mulheres que deixam a sua marca na história ao percorrerem novos caminhos, alicerçados e iluminados pela Palavra de Deus. São eles que melhor traduzem a Bíblia para os nossos dias, pois ela resplandece nas suas vidas.
Neste domingo, somos chamados a contemplar o episódio da mulher apanhada em flagrante adultério, apresentada a Jesus como acusada, com o intuito de ser apedrejada e, ao mesmo tempo, de pôr Jesus à prova. A acusação parte dos escribas, tidos como conhecedores da Lei. A armadilha é evidente: ou Jesus concordava com a sentença e deixava de ser visto como homem de misericórdia, ou ignorava a Lei e, nesse caso, não poderia ser reconhecido como profeta e seria passível de acusação.
A situação, em si, é profundamente injusta, pois apenas a mulher é acusada, quando também o homem, cúmplice no adultério, deveria ser julgado, conforme a própria Lei prescrevia. Mas Jesus não entra em debate com os acusadores. Ouve-os, mas inclina-se e escreve no chão com o dedo, enquanto a mulher permanece no meio, exposta. A estratégia de Jesus é de uma novidade radical: abre um caminho novo — o da misericórdia — capaz de tocar os corações e de chamar à conversão até os que julgam não precisar dela.
Aqueles que antes apenas acusavam a mulher, veem-se agora confrontados por Jesus com a sua própria condição, com o seu pecado e fragilidade. Jesus coloca todos no mesmo nível, revelando que todos precisamos de conversão, e que o pecado deve sempre ser evitado, por ser um atentado à dignidade humana. No entanto, Jesus não normaliza o pecado — perdoa a ação, mas chama à mudança.
Estamos perante uma das maiores novidades do cristianismo, e uma das heranças mais valiosas para a cultura ocidental: Jesus distingue o pecado do pecador, recordando que este último é sempre uma pessoa humana, cuja dignidade é inegociável. À justiça cega, Jesus acrescenta a misericórdia, mostrando que ambas devem caminhar juntas para não diminuírem a humanidade: uma justiça excessiva torna-se injusta, e uma misericórdia sem verdade transforma-se em mentira.
É este encontro profundo com a misericórdia de Jesus Cristo que cativa e impele Paulo a correr em direção à meta final, desejando alcançar a justiça de Cristo, e não apenas a justiça da Lei. É, portanto, a justiça do amor — amor sem limites — que procura a verdade, mas também, e sobretudo, o bem comum. Que deixemos a justiça de Cristo entranhar-se nas nossas vidas.

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