Saturday, 26 April 2025

Cristo que nos congrega


 

DOMINGO II DA PÁSCOA ou da Divina Misericórdia


L 1 At 5, 12-16; Sl 117 (118), 2-4. 22-24. 25-27a
L 2 Ap 1, 9-11a. 12-13. 17-19
Ev Jo 20, 19-31

 

O Evangelho deste Domingo celebra o oitavo dia da festa da Páscoa, levando-nos a olhar de modo especial para a presença de Jesus ressuscitado no meio dos discípulos. Jesus toma sempre a dianteira e vem ao encontro dos discípulos, que estão fechados com medo dos judeus e de uma possível perseguição. A possibilidade de o sofrimento tocar os discípulos surge como uma realidade, tal como havia sucedido com o Mestre. É a resposta comum quando alguém se sente em perigo, e a transformação que daí irá decorrer evidencia ainda mais a novidade da Páscoa de Jesus.

O encontro de Jesus com os apóstolos, quando estes estão reunidos, traduz-se numa experiência de grande alegria, marcada pela saudação da paz, mas também pela apresentação das marcas da crucificação. Os estigmas não desaparecem, permanecem como sinal de uma entrega que há-de ser permanente e definitiva por toda a humanidade.

À novidade do Senhor ressuscitado junta-se um renovado chamamento, uma nova vocação: os discípulos são agregados à missão de Jesus, sendo revestidos do Espírito Santo, tal como Jesus tinha sido no Baptismo, quando sopra sobre eles, como Nova Criação; com esta nova força, são agora enviados com o poder de perdoar os pecados, algo que Jesus partilha também da missão do Pai. Por isso, a missão confiada aos apóstolos reveste-os de Cristo, para poderem dar testemunho de Cristo. Assim, a vida da Igreja é chamada a ser testemunho da misericórdia de Deus, a ser sinal da reconciliação dos homens com Deus e entre si.

Por isso, o cristianismo é necessariamente relacional e comunitário. O Senhor ressuscitado revela-se aos discípulos, e são eles que têm a missão de dar testemunho do Senhor. É no acolhimento e no anúncio desta forma de vida, recriada em Deus, no sopro de Cristo, que a Igreja cresce. Assim vemos Tomé: ele, não estando presente da primeira vez, não acreditava na presença do Senhor ressuscitado; tão-pouco Cristo se lhe revelou de forma isolada; é no meio dos discípulos, da Igreja, das relações que aí existem, que cada um faz a experiência do Senhor, o qual conhece os corações. É por isso que Tomé se rende e professa a fé no Senhor: "Meu Senhor e meu Deus!". Precisamos tanto que as nossas comunidades cristãs sejam locais onde cada um se possa encontrar com Cristo, na verdade que converte e liberta.

A ressurreição muda o paradigma pessoal do medo para o amor, da indiferença para a fé. A nova comunidade dos apóstolos centra-se na partilha da vida, no cuidado de todos e na procura de um só coração. É pelo poder de Deus, agora confiado à humanidade, que as pessoas são curadas e unidas em comunhão. De facto, a comunhão dá trabalho, mas é fruto da graça, quando reconhecemos que pertencemos ao mesmo Corpo. Também nos mostra que a Igreja precisa do anúncio da Palavra e da fracção do pão, ou seja, da Eucaristia!

Neste dia em que celebramos a misericórdia de Deus, reconheçamos que dela precisamos, não apenas como algo que recebemos espiritualmente, mas também como algo que transmitimos uns aos outros com a nossa vida, nos nossos gestos e palavras. Ela é expressão de um Deus que nos olha e se compadece da nossa fragilidade, como uma força que nos eleva.

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