Friday, 23 October 2020

Sem Cristo, a fraternidade universal não é possível.




DOMINGO XXX DO TEMPO COMUM


L 1 Ex 22, 20-26; Sal 17 (18), 2-3. 7. 47 e 51ab
L 2 1 Tes 1, 5c-10
Ev Mt 22, 34-40 

As leituras deste Domingo colocam diante de nós um apelo fundamental, em que se percebe que não se pode separar o mundo de Deus do mundo dos homens, muito embora ambos também não se confundam ou misturem. Para nós, cristãos, esta é a essência do mistério da Encarnação, em que o Verbo de Deus se faz homem. São duas naturezas distintas unidas numa só pessoa pelo amor. Isto leva a que o amor de Deus criador e libertador ou redentor da humanidade se encontra com a humanidade criada para amar, mas frágil e que facilmente decai. 

É neste contexto que nos encaro a resposta de Jesus à pergunta que lhe foi feita sobre qual o maior dos mandamentos. E a resposta de Jesus é clara e nasce do Antigo Testamento: Amar a Deus sobre tudo e todos. A tentação dos nossos dias seria que Jesus dissesse imediatamente "temos é de ser boas pessoas e respeitarmo-nos e cada um seguir a sua vida". Mas não, Jesus vem para colocar a humanidade em comunhão com o Pai, pois dele provém a vida e só na medida em que se  vive para Deus é que a família humana pode de facto ser constituída como tal. Caso contrário, voltará a suceder o episódio da torre de Babel, em que a humanidade no esforço de querer chegar ao céu por si, acaba apenas confusa, em que cada um fala a sua língua sem que ninguém se entenda (cf. Gen 11, 1-9). Reconhecer o primeiro lugar a Deus não anula a pessoa, mas pelo contrário, dá-lhe o horizonte de um amor infinito que rompe as fronteiras estreitas da inteligência e do coração humano. O desejo de cada um em se querer fazer Deus está bem enraizado no coração humano, mas só Deus pode realizar a divinização, ou seja, só Ele pode saciar pelo amor puro e totalmente gratuito esse desejo, como nos recorda Santo Ireneu. 

Por isso, se o Mistério de Deus é amor e nos chama a nós a responder com amor, não se pode separar o amor a Deus do amor ao próximo. Separar estas duas dimensões seria como ter uma roda e depois não querer que ela rodasse...

Podemos afirmar sem receio que sem que o coração humano experimente profundamente o Amor de Deus, a fraternidade universal não verá a luz dos dias. Assim o coloca a primeira leitura. Nesta, Deus revela-se como o fundamento da justiça social, pelo qual toda a razão - económica, política, ou de relevância social - se submete à dignidade humana. Querer defender a justiça social sem esta consciência provocou e provoca grandes tragédias humanas na nossa história. 

Estas leituras ajudam-nos a purificar a imagem que cada um tem de Deus, o qual não é apenas o Senhor Soberano do Universo, sentado num trono de glória (cf. salmo 46(47)), mas como Aquele que manifesta o seu amor e se compadece pela humanidade, chamando-nos viver na mesma lógica, pelo dom do Seu Filho feito homem. Sem Cristo, a fraternidade universal não é possível. 

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