QUARTA-FEIRA DE CINZAS
L 1 Joel 2, 12-18; Sal 50 (51), 3-4. 5-6a. 12-13. 14 e 17
L 2 2 Cor 5, 20 – 6, 2
Ev Mt 6, 1-6. 16-18
Iniciamos hoje uma nova etapa de caminho.
Entramos em tempo de quaresma, o tempo de quarenta dias em direção à Páscoa.
Quaresma não significa tempo de tristeza ou de angústia, mas antes tempo de
essencial. Assim nos exorta o profeta Joel que contesta a superficialidade da
conversão pessoal, convidando a rasgar o coração e não os vestidos, conforme a
prática piedosa dos judeus de então.
A verdadeira conversão começa dentro e não
fora e não apenas na renúncia a um determinado defeito ou vício - algo que já
não é pouco -, mas é sobretudo passar a querer o bem que ainda não se quer. Só
assim se pode falar em conversão. E deve ser muito triste achar que já não há
nada a converter na própria vida…
A raiz da conversão encontra-se no fundo
do coração humano, no segredo da consciência da cada um, onde acontece o
encontro com Deus. O evangelho faz uma radiografia da alma mediante as três
ações típicas de um judeu piedoso: a esmola, a oração e o jejum. E estes
continuam a ser os meios comuns que a Igreja aponta para a vida da quaresma,
reconhecendo neles expressão de amor para serviço dos mais pobres.
Todavia, Jesus vai ao interior do coração.
E vemos como Ele identifica a oposição entre "fazer para os outros verem”
ou "fazer em segredo". A ironia do texto é impressionante, expondo a
nossa vida e apresentando como só o Pai "vê o que está oculto", sinal
que indica que a vida moral (bem como a restante) se alicerça no coração. Sem o
encontro com Deus, facilmente a fé fica em ritos exteriores, para evidenciar
uma suposta perfeição, e o nosso coração fica com uma armadura onde nada pode entrar
e nada pode sair. Era assim no tempo de Jesus; é assim também no nosso. A
relação com Deus deixa-nos diferentes.
Uma das palavras mais ouvidas neste texto
é a da “recompensa”. Uma, a marcada pela exterioridade, leva aos aplausos e
admiração alheia; a outra introduz em relação e procura o amor, como chave que
não desiste nunca de fazer crescer o bem, algo que depois se traduz em amor
pelos demais. Na raiz está a humildade, simbolizada nas cinzas que impomos
sobre a nossa cabeça, cinza que nos lembra a nossa fragilidade humana,
chamando-nos de retorno ao essencial. Mas a humildade é também o meio onde toda
a virtude se pode desenvolver e por onde as divisões podem ser sanadas.
Este tempo de quaresma apresenta-se como um tempo de purificação de toda a nossa vida pessoal e eclesial, em todos os aspectos, convocando-nos para a busca da justiça e do amor, dispondo o nosso coração para acolher o dom da Páscoa. Que não desistamos de caminhar.

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