SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO
SOLENIDADE
L1: Gen 14, 18-20; Sal 109, 1. 2. 3. 4
L2: 1 Cor 11, 23-26
Ev: Lc 9, 11b-17
«Terra, exulta de alegria, louva o teu pastor e guia, com teus hinos, tua voz» — diz a sequência da solenidade que a Igreja hoje celebra.
É neste clima de louvor e de alegria que a Igreja hoje se reúne para celebrar o dom da Eucaristia nas nossas vidas, como sinal da entrega de Jesus, no seu Corpo e Sangue. Esta festa foi instituída pelo Papa Urbano IV, em 1264, com o intuito de celebrar a presença real e pascal de Jesus Cristo, na sequência do milagre eucarístico de Bolsena, ocorrido alguns dias antes, no qual, de uma hóstia consagrada, brotaram algumas gotas de sangue.
As leituras que a liturgia nos propõe apresentam-nos o dom do pão e do vinho que Melquisedec, rei de Salem [etimologicamente, rei da paz], oferece a Abraão após as suas batalhas — pão e vinho como sinais da bênção de Deus. Em resposta a este dom, Abraão entrega o dízimo do que recebeu como sinal de reconhecimento.
O Evangelho narra o episódio em que Jesus alimenta as multidões mediante a fração do pão, sinal da Eucaristia. Não o apresenta como Paulo o faz na Carta aos Coríntios, onde transmite as palavras de Jesus na Última Ceia e a sua ligação ao mistério pascal. O Evangelho segundo Lucas apresenta-nos este episódio em Betsaida, depois da missão dos discípulos e antes da profissão de fé de Pedro, reconhecendo Jesus como Filho de Deus. Jesus ensina as multidões, cura os doentes, faz da sua vida uma entrega por nós.
Todavia, ao entardecer do dia, a fome que se faz sentir desperta uma preocupação nos discípulos: as multidões deveriam ser dispersas para que pudessem comprar alimento. Não deixa de ser pertinente a resposta de Jesus: «Dai-lhes vós mesmos de comer!», apesar de os discípulos terem tão pouco até para si próprios.
Mas a ação de Jesus — receber o pão, dar graças, parti-lo e distribuí-lo — torna evidente uma lógica eucarística de partilha mútua, em que a igualdade, e talvez até a divisão do pouco que havia, se realiza entre todos. Em Cristo, ergue-se uma nova forma de partilha e de vida.
A celebração da Eucaristia leva-nos, por isso, a olhar para Cristo como o alimento das nossas vidas, algo que deve despertar em nós uma atitude de adoração. Dizia Santo Agostinho: «Ninguém coma esta carne sem a adorar; pecaríamos se não a adorássemos» (Enarr. in Ps. 98, 9, CCL XXXIX, 1385). A adoração recorda-nos o dom que recebemos, pelo qual somos inseridos em Deus; enquanto que, ao comermos o pão de cada dia, esses elementos passam a fazer parte de nós, na Eucaristia sucede o contrário: somos nós que somos inseridos em Deus.
No nosso tempo, por vezes, perdemos este sentido de louvor e de adoração. Mas o louvor que fazemos erguer com a nossa voz e com a nossa vida está ligado ao amor e à gratidão — como o dízimo que vimos em Abraão, que se entrega de volta. Adorar, tomando as palavras da sequência que escutávamos, é:
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reconhecer o Pastor que nos guia, e que se dá a nós em alimento;
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acolher o Pão vivo que dá vida, no qual, pela Eucaristia, somos inseridos em Cristo, como membros do seu Corpo Místico;
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viver no cumprimento das promessas que Deus fez — de sermos filhos de Deus, com a promessa da vida eterna e da comunhão com todos.
Que a celebração da Eucaristia nos faça recordar que Jesus se fez alimento para nos fortalecer no caminho da vida, tornando-se graça para nós e conduzindo-nos à vida em comunidade. Não lhe faltemos com o nosso amor e entrega.
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