Saturday, 12 July 2025

"Vai e faz o mesmo!"




DOMINGO XV DO TEMPO COMUM


L 1 Dt 30, 10-14
Sl 68 (69), 14 e 17. 30-31. 33-34. 36ab-37 ou Sl 18 B (19), 8.9.10. 11
L 2 Cl 1, 15-20
Ev Lc 10, 25-37 


A Liturgia da Palavra deste domingo coloca diante de nós a parábola do Bom Samaritano, um dos textos mais conhecidos de todo o Novo Testamento e com uma força que, ainda hoje, nos desinstala. O texto apresenta-nos um homem — sinal da nossa humanidade — que desce, em altitude e, talvez, como sinal de uma vida que se rebaixa em dignidade, e que é atacado. É um homem que fica estendido, quase morto, à beira do caminho.

Por ele passam um sacerdote e um levita, que o veem mas seguem adiante. Note-se bem: o texto refere que eles “desciam”, e por isso não se coloca aqui a questão da impureza ritual para o sacerdote (cf. Números 19, 11-22), que o impediria de entrar no templo durante sete dias, nem para o levita, que nem sequer tinha essa limitação. O que está verdadeiramente em causa é a indiferença e a dureza de coração diante de alguém que precisa de ajuda.

A pertinência do texto concretiza-se na figura do samaritano, que vê, se compadece e cuida do ferido com os seus próprios bens. É precisamente este homem, tido como desprezável entre os judeus, que Jesus apresenta como exemplo de quem se faz próximo — ou melhor, que faz do outro o seu próximo.

A imagem é forte, e sabemos que a Tradição da Igreja leu na figura do Samaritano o próprio Jesus Cristo, que se aproxima da nossa humanidade e nos trata com misericórdia e cuidado. É precisamente isto que torna este texto tão surpreendente: Deus aproxima-se do que é mais frágil, mais limitado, até mesmo do que é menos valorizado, para o erguer e cuidar.

A fé e a vida cristã pedem-nos a perfeição — mas não uma perfeição feita de rigidez ou afastamento, como quem evita os sofrimentos deste mundo. Esta perfeição é cheia de vida e de ação, toca a humanidade nos seus dramas, e implica dar-se, e não apenas dar coisas.

É o sinal de uma Igreja que não se fecha sobre si própria, mas está atenta e em saída, para fazer o mesmo que o Bom Samaritano — como nos recorda o final do trecho do Evangelho.

É uma atitude de escuta ao clamor dos que nos rodeiam, de cumprimento do espírito do Evangelho e não apenas do saber doutrinal, como se fosse uma letra morta. É converter o coração, mudá-lo, para agir em favor do outro. É, por isso, dispor-se a encontrar formas de chegar aos outros e fazer da vida da comunidade um lugar de missão e de reconciliação.

Estamos a chegar ao final de mais um ano pastoral e começamos já a sonhar o próximo. A propósito da atitude do sacerdote e do levita, não podemos limitar-nos apenas à celebração da Eucaristia — ainda que central para a nossa fé. O compromisso com uma vida reta, que se concretize no anúncio e no testemunho da fé, numa nova atitude que nos leve aos lugares da nossa humanidade, e numa atenção especial a quem sofre e precisa de ajuda, independentemente da sua origem, são tarefas indispensáveis para todos nós.

Assim faz Cristo connosco. Assim somos também nós chamados a fazer.


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