DOMINGO XX DO TEMPO
COMUM
L1: Jer 38, 4-6. 8-10; Sal 39 (40), 2-3. 4. 18
L2: Hebr 12, 1-4
Ev: Lc 12, 49-53
A liturgia da Palavra deste domingo
coloca diante de nós a realidade de que o testemunho e o anúncio da Verdade
implicam muitas vezes confronto. Assim aconteceu com Jesus, que, por amor à
verdade, denunciou injustiças; assim foi nos primeiros tempos do cristianismo,
fecundos em mártires; assim se vê na vida de tantos santos e continua a
acontecer hoje, pois, a um testemunho radical do Evangelho, levantam-se sempre
forças de resistência. De facto, Jesus mostra-nos que, pelo amor à verdade e ao
bem, muitas vezes surgem conflitos. Mas esta sempre foi uma constante na
história bíblica.
Na primeira leitura, o livro de
Jeremias descreve-nos a situação do profeta, que é colocado às portas da morte
por ordem do rei porque este se recusa a aceitar o apelo à conversão e à
mudança de vida. O rei Sedecias, ao preferir seguir os mandatos de outros reis
mais poderosos em vez da vontade de Deus, na iminência da invasão dos
babilónios, é denunciado pelo profeta. Infelizmente, este mesmo rei acabaria
por ver o povo partir para o exílio e os seus filhos morrerem.
O Evangelho apresenta-nos Jesus a
descrever a sua missão não como uma simples conciliação de interesses
contrários, mas como uma força que distingue o bem do mal, uma dinâmica
que podia levar a rupturas até no seio das famílias. Contudo, a missão de Jesus
não é contra ninguém, nem Ele apela à escolha de inimigos ou à separação entre
bons e maus; o seu anúncio dirige-se contra tudo aquilo que afasta a pessoa
humana de Deus e lhe rouba a dignidade; aí não existem concessões. Contudo, Jesus
não divide o mundo em bons e maus – a todos apela à conversão, como nos recorda
o episódio da torre de Siloé (Lc 13, 4-5). Assim, existe um combate, mas sempre
em favor da verdade, iluminado pelo amor de Cristo que entrega a sua vida. E
não podemos deixar de dizer que tantas vezes, na Igreja, se assiste a quem,
estando dentro, se julga melhor do que os de fora. Aliás, o próprio Santo
Agostinho recordava, na sua maior obra A Cidade de Deus: “Alguns,
parecendo que estão fora da cidade de Deus na terra, pertencem a ela no céu;
mas também alguns, parecendo que pertencem a ela na terra, não fazem parte dela
no céu.”
Este combate — o combate da fé, como
dizia São Paulo — começa, antes de mais, dentro de cada um de nós, na procura
de fidelidade a um amor maior, esforçando-se por não ceder à indiferença, ao
ódio, ao afastamento de Deus ou ao ressentimento. É uma procura diária,
resposta ao amor recebido, que nos faz caminhar na graça.
Ao mesmo tempo, e para evitar um
individualismo perfeccionista, este combate implica também olhar com atenção a
realidade que nos envolve: os dinamismos de opressão e os abusos de poder
contra os mais frágeis em nome de lucros ou interesses. Estes abusos podem ser
económicos, mas também afectivos, manipuladores ou até relacionados com o mau
uso dos bens da terra, com consequências ecológicas.
Esta dinâmica de divisão está já
inscrita na Palavra de Deus, que penetra até à medula do nosso ser para
discernir as motivações do coração e purificar as nossas acções, de modo a
vivermos um amor maior.
Sejamos construtores de pontes e de
caminhos de aproximação, mas nunca aceitemos o mal como opção necessária para a
nossa vida.

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