Friday, 27 March 2026

Na cruz do Senhor estou eu e tu

 

DOMINGO DE RAMOS NA PAIXÃO DO SENHOR


L 1 Is 50, 4-7; Sl 21 (22), 8-9. 17-18a. 19-20. 23-24
L 2 Flp 2, 6-11
Ev Mt 26, 14 – 27, 66 ou Mt 27, 11-54 

 

Estamos a celebrar o Domingo da Paixão do Senhor, início da Semana Santa e Semana Maior da nossa fé. A palavra "Paixão" deriva do latim passio, a qual significa tanto sofrimento como amor, numa união íntima entre estas duas realidades.

A liturgia deste domingo coloca-nos precisamente neste relato, não apenas como ouvintes ou observadores externos, mas convida-nos a ser verdadeiros participantes de um acontecimento central. Trata-se sempre dos relatos mais centrais dos evangelhos, aqueles que mais demoram a ser narrados. Numa lógica de quem olha o cristianismo apenas como uma moral, pode estranhar-se esta duração, mas quem acredita que o evangelho é escrito para levar à fé compreende o Mistério que aqui se encerra. Aqui não estamos a ouvir uma lição de como agir, mas a contemplar a vida de Jesus Cristo.

Toda a liturgia apresenta Jesus como o manso cordeiro levado ao matadouro, ligando este acontecimento à ceia judaica da libertação do Egito. Agora a libertação é outra, em que Jesus entra para nos fazer viver de uma maneira nova por dentro das dificuldades da vida. Jesus assume o lugar do último, daquele que é preterido por um malfeitor, Ele que tinha feito tanto bem. Ele assume toda a violência do mundo.

A violência que Jesus assume é a nossa, a dos nossos dias, a minha e a tua. Por isso, Jesus não podia salvar-Se a Si mesmo; isso seria contrariar quem Ele era, a Sua própria vida. Ele veio para salvar-nos e entrega-Se nas mãos dos homens, no Seu amor até ao fim, na Sua descida até ao mais baixo da condição humana. Vemo-Lo a descer de Deus para homem; de homem para servo; a morrer na maldita cruz; e, na tradição da Igreja, a descer à mansão dos mortos. É este percurso que leva a que o centurião romano — logo, não judeu — pudesse expressar com toda a certeza: "Este era verdadeiramente (alethos — palavra usada no Evangelho de Mateus apenas três vezes, sendo que duas delas se destinam a confirmar a filiação divina de Jesus) Filho de Deus". Reconhecemos na cruz a presença de Cristo que se entrega por nós, ou apenas repetimos o gesto habitual?

A cruz do Senhor, para nós cristãos, nunca pode ser vista apenas como um instrumento de morte; na fé sabemos que Jesus ressuscitou, ou seja, superou a morte. É por isso que a Tradição da Igreja olha para a cruz como o madeiro, a árvore que possui o mais belo fruto, aquele que nos sustenta. É hoje também que o nosso "sim" é chamado a ser dado nesta cruz.

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