Friday, 17 July 2020

O poder da misericórdia



DOMINGO XVI DO TEMPO COMUM


L 1 Sab 12, 13. 16-19; Sal 85 (86), 5-6. 9-10. 15-16a
L 2 Rom 8, 26-27
Ev Mt 13, 24-43 ou Mt 13, 24-30


As leituras deste domingo coloca-nos diante da revelação de Deus e da imagem de omnipotência que existe em nós. Esta Palavra que revela Deus é a mesma Palavra que nos lê e nos põe em relação. Que por isso revê o que vemos como omnipotência. 

A leitura do livro da sabedoria revela o "Deus dos exércitos" como o todo poderoso, como aquele a quem pertencem a "força e o poder" (nalguns textos de Apocalipse 7,12) mas que diferem tanto do nosso imaginário comum de domínio e governo. Em Deus, o poder associa-se à misericórdia e por isso torna-se capacidade de ser terra que aceita ser rasgada pela vida que assim pode germinar e crescer. Mas mais ainda, é local de experiência para ensinar a verdadeira humanidade. Capacidade de espera de um poder que gera vida. Capacidade de abertura, de ouvir e autenticamente falar ao outro. 

O Deus que nos é revelado no Antigo Testamento é manifestado como Pai em Jesus Cristo, e permanece connosco no dom do Espírito Santo. Ensina-nos a rezar e a pedir - como Jesus o fez - para nos fazer entrar na experiência de filhos que precisam de aprender a falar como fala o Filho. É linguagem nova que não se esgota, mas que chega ao mais profundo da alma, em que as palavras são apenas meio (ou sacramento!) para entrar num horizonte muito mais vasto. Aqui não ficamos pelas distâncias, mas torna-se relação verdadeira e fundamental, resposta essencial ao nosso ser que anseia pela amor sem condições e sem limites. Quando isto acontece, são os místicos cristãos que reconhecem que o coração se dilata à humanidade. 

Para isto é preciso tempo e perseverança. É preciso a vida inteira para saber esperar a semente do trigo que germina e cresce, e que no fundo só Deus conhece a sua identidade (o final dos tempos a Ele pertence). Olhares mais apressados ou perfeccionistas podem querer arrancar joio e com isso também arrastar o trigo  É que as raízes do joio crescem à volta das do trigo. À ânsia da pressa dos resultados e das soluções pragmáticas dos funcionários, e por isso desajustadas ou perigosas, o dono deste campo sabe que enquanto a semente cresce e se matura, não é fácil separar uma realidade da outra. Trata-se de sinal de esperança e de aviso: Esperança, que nos abre o horizonte à conversão pessoal e social; aviso, que o nosso tempo é finito. 

Todavia a lógica do Reino é sempre a mesma: a da vida que cresce, amadurece e dá fruto para outros. A lógica do Reino é sempre a lógica do dom. Assim, é a semente da mostarda, que germina e recebe a multidão dos pássaros; assim é a lógica do fermento na farinha (3 medidas de farinha equivalem a qualquer coisa como farinha para 150 pessoas) que multiplica para alimentar. A lógica da misericórdia é por isso a lógica da vida, da festa e da comunhão. E é aqui que realmente está o poder de Deus.  

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