Saturday, 4 July 2020

Humildemente Omnipotente


DOMINGO XIV DO TEMPO COMUM


L 1 Zac 9, 9-10; Sal 144 (145), 1-2. 8-9. 10-11. 13cd-14
L 2 Rom 8, 9. 11-13
Ev Mt 11, 25-30


Ao se olhar a história da humanidade é possível constatar que o exercício do poder e do domínio sobre outros são realidades persistentes ao longo da história. Todavia não é algo que pertença apenas à história humana, mas assistimos a isso em outras formas de vida - por exemplo, na colónias de abelhas ou alcateias. Como tal a questão não pode ser apenas colocada no sentido de abolir estes dinamismos, sob pena de se estar a combater, como D. Quixote, moinhos de vento, mas de perceber o valor presente, e sobretudo perceber como isso interpela a nossa vida de fé. 

As leituras que nos são colocadas aqui fazem uma apologia à alegria, à humildade, à paz.  Pode parecer ridículo, mas querem transmitir um estilo de vida (e um amor) que nos colocam de pés bem assentes na terra, longe da ingenuidade aparente. 

Uma das grandes características que atravessam o texto é a certeza de que a vida humana é atravessada, não pela lógica estreita da auto-suficiência, mas da capacidade de alegria por um salvador, que contrariando a lógica dos grandes exércitos, nos revela a essência de vida na procura da humildade. Recordemos que a profecia de Zacarias é escrita em contraposição à demonstração de poder de Alexandre Magno ao atravessar a costa palestiniana no sec IV a. C. 

Humildade, que deriva da palavra latina humus - terra, solo -, não significa auto-desprezo por si, mas é, na tradição da espiritualidade cristã, sinónimo de verdade, reconhecimento dos próprios limites, para aí poder acontecer o crescimento. A humildade é extremamente fecunda, descentra-nos do eu "omnipotente", para ser capaz de gerar capacidade de relação, gratidão e louvor. A humildade gera sabedoria e faz-nos reconhecer como limitados, mas abertos ao futuro. Quem tudo sabe, já nada aprende nem vê. É também nesta linha que vemos a mansidão que Jesus nos revela que a virtude está mais na capacidade não de lutar contra alguém, mas de lutar pelo bem e procurar a paz, condição de possibilidade para existência humana. 

É esta a omnipotência que descobrimos Jesus, Filho de Deus como humilde e cheio de mansidão (Mt 11, 29), capaz de transbordar de alegria (exomologeó - intimamente convencido e abertamente professado) pelo bem que vê a acontecer nos outros e a convidar-nos para com ele entrar nesta forma de vida. 

Nesta lógica, o poder já não pode ser visto como opressão, mas antes serviço pelo bem-comum, capaz de com autoridade fazer crescer a vida nos outros. 


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