Friday, 31 July 2020

Pão para o caminho




DOMINGO XVIII DO TEMPO COMUM


L 1 Is 55, 1-3; Sal 144 (145), 8-9. 15-16. 17-18
L 2 Rom 8, 35. 37-39
Ev Mt 14, 13-21


As leituras deste Domingo colocam diante de nós a revelação de Deus como alimento. Este é um dado importante da revelação bíblica, pois somos convidados a descobrir um Deus que cuida do Povo e que por isso se distingue da lógica egocêntrica dos ídolos que exigem sacrifícios para acalmar a sua ira ou comprar a sua benevolência. 

Assim o vemos no profeta Isaías, que convida o Povo a aproximar-se, mesmo sem dinheiro, a comprar e comer. Deus coloca-se aqui como o sustento gratuito e doado ao Povo, contrapondo-se àquilo que não pode saciar a humanidade; apenas se pede ao Povo que escute a Deus. E também aqui se nota que este Deus não se cansa de apelar a um Povo que se afasta, precisamente por lhe querer bem. 

A lógica repete-se no Evangelho. Volta-se a redescobrir as entranhas de misericórdia de Deus, agora em Jesus Cristo. Ele é a Palavra que o Povo quer escutar, Ele é Palavra que cura aqueles que dele se aproximam. Assim o vemos em Jesus que sai da barca, o Povo, compadece-se e o cura. Ao desejo dos discípulos de "mandar embora a gente" e à pergunta de onde "comprar pão", Jesus interpela os discípulos para serem eles a alimentar o Povo. 

É neste momento que Jesus convida os discípulos a mudar de mentalidade. Do pouco que se tem - e porventura se é - Jesus faz brotar a abundância para todos, pela acção de dar graças - eucaristizar -, assumindo-se como o novo pão - novo manã - que sustenta os outros no seu caminho. A sua acção permanece todavia sempre mediada pelos discípulos e recorda a missão da Igreja de ser ponte (sacramento) para toda a humanidade que bate à porta.

Aqui está o verdadeiro milagre de Jesus: pela sua acção, os discípulos superam a lógica do vender e comprar, para entrar na lógica da partilha e comunhão, a única que de facto faz crescer e emergir a vida. É de facto, a lógica do amor que gera comunhão e que está na base da Eucaristia que celebramos. Assim o vivia a Igreja dos primeiros séculos, que assinalava que quando dois cristãos não se encontravam em comunhão, deveriam perdoar-se para assim poderem dignamente celebrar a Eucaristia (Didaque, Cap. XIV 14, 2)! Celebrar Eucaristia não é por isso o encontro individual com o meu Jesus, mas antes reconhecer-se necessitado de Deus, e que esta relação se vive sempre na mediação com os que caminham ao nosso lado. 

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