Saturday, 9 March 2024

«A Cruz permanece intacta enquanto o Mundo dá sua órbita»

  



DOMINGO IV DA QUARESMA


L 1 2 Cr 36, 14-16. 19-23; Sal 136 (137), 1-2. 3. 4-5. 6
L 2 Ef 2, 4-10
Ev Jo 3, 14-21


Na linguagem antiga da Igreja, a cruz era vista como a árvore da vida. Esta simbologia remonta ao segundo relato da criação, sendo uma das árvores de que o primeiro Homem estava impedido por Deus de comer dessa árvore, juntamente com a árvore do bem e do mal. A expulsão do jardim do Éden acontece para evitar que o homem pudesse comer dessa árvore e vivesse para sempre (cf. Gen 3, 22). É esta árvore da vida que surge no livro do Apocalipse (Ap 22, 14), como prémio a todos aqueles que vivem fielmente. 

Na história humana, como relata a primeira leitura, o afastamento da aliança de Deus levou ao exílio do Povo de Deus para a Babilónia; o texto afirma com alguma ironia que o exílio é a oportunidade dada ao Povo para descontar os seus sábados, os quais na tradição judaica eram tempo para louvar a Deus. A pergunta pode ser feita também a nós: como vivemos os dias santificados, o domingo, os tempos especiais de encontro com Deus e com os outros? Como reconhecemos neles o caminho para vivermos do essencial da vida? 

Reparemos que o exílio é por isso apresentado como um caminho de purificação, como resultado da ação da misericórdia de Deus, e onde é pela ação do Rei Ciro, coloca os meios para o regresso do Povo. Na nossa história, na nossa vida, Deus encontra sempre um caminho de misericórdia, que não nega as consequências do mal, mas é capaz de integrar, sendo por ele a dignidade humana é sempre cuidada. 

O cerne da vida da fé vive disto: da confiança que nasce da entrega de Jesus por nós, em que não são as nossas obras que nos dão a dignidade. Antes, é pela ação da graça de Deus em nós que somos fortalecidos para as boas obras. Isto gera em nós a alegria, de sabermos que o amor de Deus nos acompanha, que as portas da nossa vida que porventura estejam fechadas talvez se possam abrir, ou facilitem a virtude da tolerância como salienta a nossa caminhada quaresmal. 

É neste contexto, que vemos a cruz de Jesus, segundo a qual a Tradição da Igreja não sublinhou como o assassinato de Jesus. Na cruz, Cristo assume todas as  falsidades humanas, tal como a serpente de bronze assumia todas as injúrias feitas contra Deus. Deus tem sempre misericórdia para com todos aqueles que a querem receber. É essa mesma misericórdia que está na base da fé e da virtude,  na medida em que ambas fazem parte da resposta de amor a Deus que chama. 

A cruz é para nós cristãos, símbolo da paz, da esperança e da alegria. A cruz é certeza de um Deus que se entrega pelo amor da humanidade. Assim a colocam alguns medievais, onde o Cristo aparece a sorrir.  (https://willwilltravel.files.wordpress.com/2012/06/christ-souriant.jpg). Também em Aveiro nos é dada a possibilidade de ver a imagem de Cristo crucificado que na cruz sorri

Na nossa caminhada quaresmal, neste domingo começamos a vislumbrar a Páscoa, onde antes de toda a consideração moral, está o amor maior de Cristo, a sua entrega, de onde nasce a promessa de atrair todos a si. Dizia São Bruno, fundador dos cartuxos: «A Cruz permanece intacta enquanto o Mundo dá sua órbita» (Stat crux dum volvitur orbis). Que a cruz na nossa vida esteja encostada com a Cristo; por ela, encontraremos a ressurreição. 

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