Caríssimos
irmãos e irmãs,
Iniciamos hoje o tempo santo da Quaresma, um período de conversão da vida. Converter-se não significa deixar apenas de fazer algumas coisas que nos parecem erradas, mas implica sobretudo uma verdadeira transformação interior. A conversão é um dom que Deus nos dá, pois deve partir sempre de uma decisão de amor. Por isso, não é apenas rejeitar o mal, mas também de querer amar o bem que antes não se valorizava.
Neste ano, somos convidados a olhar para a imagem do mel e da abelha,
símbolo que nos acompanha na caminhada quaresmal, proposta pelo nosso Bispo.
Esta imagem ajuda-nos a compreender o caminho conjunto que somos chamados a
percorrer, como comunidade, numa vida mais sintonizada com o amor de Deus, representado
pelo mel, que tantas vezes, na Bíblia, é comparado à Palavra de Deus.
O caminho de conversão começa dentro de nós e não a partir do exterior.
O profeta Joel recorda-nos isto com as suas palavras: “Rasgai o vosso
coração e não as vossas vestes” (Joel 2,13). Rasgar o coração significa
permitir que a contrição aconteça em nós, ou seja, reconhecer as nossas
escolhas erradas, todas as vezes em que falhamos no amor a Deus e aos nossos
irmãos. Por isso, a Quaresma não é apenas uma mudança de hábitos, mas um
convite à mudança do coração, à confiança plena na misericórdia de Deus e à
coragem de acolher a transformação. Assim como a abelha trabalha
silenciosamente, sem ostentar as suas ações, mas com grande eficácia, a
verdadeira conversão acontece no mais profundo do nosso ser, onde só Deus vê.
Mas é preciso ter fé: todo o bem que fazemos é sempre visto por Deus.
Jesus chama-nos à reconciliação com Deus, pois Ele, na Sua
misericórdia, fez-Se próximo de nós. “Deixai-vos reconciliar com Deus”
(2 Cor 5,20), diz São Paulo. E ao reconciliarmo-nos com Deus, somos também
chamados a tornarmo-nos próximos uns dos outros. A Quaresma é, portanto,
um tempo de cuidado, de relação e de generosidade. A esmola, a oração e o jejum
são os três meios que nos são dado
s para viver esta reconciliação. Eles são
sinais de caridade para com o outro, não numa lógica de retribuição – de fazer
para receber algo em troca – mas como dom gratuito, no cuidado da relação com
Deus, com os outros e com toda a criação.
A oração é o tempo que damos a Deus e à escuta da Sua Palavra.
Significa dedicar mais tempo à leitura da Bíblia, à oração do terço,
à meditação sobre a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus e a procurar
uma maior união com Ele. A aproximação ao Sacramento da Reconciliação é
também uma oportunidade para avaliarmos os caminhos percorridos, pedirmos
perdão e acolhermos a misericórdia divina nas nossas vidas.
Outro meio fundamental que nos é dado é o jejum, através do qual
somos chamados a despojarmo-nos do supérfluo para nos concentrarmos no
essencial. Não se trata apenas de uma privação física, mas de um exercício
espiritual que nos ensina a olhar com mais carinho para os que precisam, tanto
material como espiritualmente. O jejum ensina-nos a dizer “não” ao que é apenas
um capricho, para podermos partilhar com quem mais necessita. Ajuda-nos a
reparar nas necessidades dos outros, a reconhecer as suas feridas e a
oferecer-nos como sinal de cuidado e solidariedade.
Sabemos e confiamos que Deus, que é Pai, vê o que está oculto (Mt 6,4). O bem que fazemos pode ser invisível aos olhos do mundo, tal como o trabalho da abelha, mas tem um poder transformador. O mel da nossa vida, fruto da nossa conversão, pode ser discreto, mas, unidos como comunidade, podemos transformar o mundo, assim como as abelhas transformam a natureza. O caminho é o deixarmos a nossa vida transbordar da doçura do amor de Deus, sabendo que a nossa meta definitiva é o encontro com Cristo Ressuscitado, sinal para nós de uma esperança maior: a eternidade com Deus.

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