Thursday, 23 October 2025

Só se pode rezar mesmo com a verdade






DOMINGO XXX DO TEMPO COMUM

 

L 1 Sir 35, 15b-17. 20-22a (gr. 12-14.16-18); Sl 33 (34), 2-3. 17-18. 19 e 23
L 2 2Tm 4, 6-8. 16-18
Ev Lc 18, 9-14

 

A liturgia da Palavra deste Domingo coloca-nos diante da experiência da oração como caminho essencial da vida humana. Mas a Palavra de Deus ajuda-nos a compreender que, no coração da oração cristã, está verdadeiramente o amor de Deus — e somente este tem primazia absoluta.

 

Iguais perante Deus

Um dos primeiros pontos que a liturgia nos chama a perceber é a nossa condição de sermos iguais perante Deus. Não é o nosso estatuto que influencia Deus, nem torna a nossa oração mais forte. Não é o nosso conhecimento que nos aproxima mais Dele ou que torna a oração mais eloquente.

A primeira leitura mostra-nos o cuidado de Deus pelos mais frágeis — pelo órfão e pela viúva, aqueles que muitas vezes não conseguem defender-se ou afirmar-se. No cerne da oração está a capacidade de adorar a Deus, de o amar e de ser humilde. Isto não é fraqueza: a oração do humilde procura sempre a justiça, os caminhos da verdade, e é por isso transformadora.

 

A imagem que temos de Deus marca a nossa vida

O Evangelho continua a falar-nos da humildade e mostra como a imagem de Deus que temos influencia a nossa forma de estar e de rezar. Perguntas como “Em que Deus acredito?” ou “Como é o Deus em que acredito?” são determinantes para a nossa vida.

 Jesus apresenta duas figuras: o fariseu e o publicano. O fariseu reza de pé, para se mostrar justo, cumprindo preceitos e evitando o mal dos outros, mas é indiferente ao próximo. O publicano, traidor e desonesto aos olhos da sociedade, reza reconhecendo a sua condição de pecador. Não se gaba das suas habilidades; pede a ajuda de Deus e confessa a verdade de si mesmo. Quando só falamos de nós e para nós na oração, já não estamos a rezar. A oração não é a procura de mim mesmo apenas. É abertura com verdade ao Outro, a Deus que nos ama. E isto é o que nos distingue da meditação que vemos tantas vezes anunciada por aí.

 

Só a verdade pode ser rezada

É um grande dom sermos capazes de nos ver com os olhos do amor de Deus e de reconhecer como respondemos ao Seu amor. Confiar nesse amor purifica e perdoa.

Mas isso só é possível quando nos reconhecemos tal como somos e deixamos Deus transformar-nos. Quando não enaltecemos as nossas conquistas acima das dos outros, mas nos vemos como comunidade onde todos contribuem, a oração torna-se sincera e verdadeira.

Todos somos frágeis e todos precisamos da misericórdia de Deus. Aceitar que falhamos e dar nome às nossas falhas é difícil, mas libertador. É assim que nos abrimos ao perdão de Deus — e ao mesmo tempo nos tornamos capazes de perdoar os outros.

Quando a nossa imagem de Deus é a de um amor incondicional, que nos quer tornar justos e nos justifica, então a sociedade em que vivemos seria tão diferente.


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