Missa Vespertina da Ceia do Senhor
Entramos na celebração do Tríduo Pascal. Contemplámo-lo e sabemo-lo como alicerce essencial da nossa fé, sinal de amor levado até ao fim. É mesmo iniciativa de Deus que nos deseja fazer passar para a sua liberdade, a verdadeira liberdade de amor.
É este o contexto da primeira leitura. Nela ouvimos o modo como Deus recomenda que se prepare a libertação do Povo hebreu, escravo na terra estrangeira do Egipto. É o Sangue da vítima imolada que permanece, que afasta a morte do Povo de Deus.
Podemos ver aqui um sinal, como nos recordava S. João Crisóstomo: “Se o anjo da morte não entrou ao ver o sangue do animal, quanto mais não se afastará ao ver o Sangue de Cristo?!”. É este sangue que nos lava e nos purifica, no qual lavamos a nossa veste branca do baptismo, como nos lembra o livro do Apocalipse.
Estamos diante do sinal do Amor de Deus: deseja viver connosco, fazer-nos entrar na sua intimidade. Faz-se presente no pão e vinho para se fazer alimento para a nossa caminhada, nos sustentar na caridade e alargar a nossa esperança. Eis o mistério central de Deus: o amor entregue, o ágape, sinal de doação plena que não se faz depender do reconhecimento do outro. É por isso que o Senhor deseja levar o seu amor até ao fim; neste sentido, o Evangelho de São João não narra as palavras da instituição da eucaristia; essas ouvimo-las num dos relatos mais antigos da Novo Testamento, pela mão de São Paulo.
São João concretiza a forma do amor de Cristo por nós, explicita o que se oculta no pão e no vinho: Jesus lava os pés aos discípulos, tarefa de servo, tarefa de quem veio para servir e não para ser servido, caminho de humildade para a verdadeira vida. Jesus concretiza assim o que significa a eucaristia e aponta-nos a sua via para a nossa vida: servir.
Mas o lavar dos pés tem ainda outro sentido: é gesto de Cristo necessário para fazer com que Pedro entre na verdadeira vida; assim, todos precisamos de ser lavados por Deus, de sermos purificados dos nossos pecados para cumprirmos verdadeiramente a nossa vocação como cristãos.
Participar da eucaristia significa antes de mais querer ser tomado por Cristo para ser entregue ao Pai; é caminho que nos vai transfigurando à imagem divina, para podermos ser cada vez mais de Deus e dos homens. Somos participantes sim, mas reconhecendo neste pão a fonte da vida que nos ultrapassa, e que nos conduz, mesmo na noite escura, à intimidade de Deus.
Celebremos a Páscoa e peçamos a graça de passarmos para uma vida mais nova e plena.
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