DOMINGO IX DO TEMPO COMUM
L 1 Dt 5, 12-15; Sl 80 (81), 3-4. 5-6ab. 6c-8a. 10-11ab
L 2 2Cor 4, 6-11
Ev Mc 2, 23 – 3, 6
A liturgia da palavra deste domingo convida-nos a olhar para o Sábado da Criação, o dia consagrado ao Senhor. Este é o dia que nasce na tradição judaica como dia de descanso do trabalho, para se recordar e fazer memória da ação de Deus no meio do povo. É o dia em que Deus descansou e abençoou a criação. Por isso, enquanto se valoriza o lugar do trabalho, o dia do Senhor é o dia para reconhecer a fonte da nossa identidade, a qual nasce de Deus e para Ele retorna, sendo a humanidade chamada a repousar em Deus. Ou seja, este dia é dedicado ao cuidado da dignidade humana.
Historicamente, uma das maiores infidelidades do povo judeu era a falta do cumprimento do Shabbat, no seu afã de lucro, algo que os profetas denunciam e que, na narrativa hebraica, levou o povo ao exílio para descontar os sábados em falta (cf. 2 Cr 36, 19-21). É essa procura de fidelidade que leva ao excesso de legalismo dos fariseus e à dureza de coração que vemos acontecer no Evangelho, ao querer privar qualquer ação de bondade que possa parecer trabalho.
Jesus depara-se com este drama legalista e vive com os seus discípulos a procura de uma fidelidade assente numa categoria filial, revelando um Deus que é Pai e que, por isso, serve a humanidade. Muito mais do que o legalismo, está o amor à humanidade. Por isso, Jesus fica indignado com a dureza dos corações e contrapõe os exageros dos fariseus com a própria Escritura, retomando o episódio de David. Portanto, Jesus não faz exceções; ele restaura este preceito para a sua bondade inicial, o do descanso em Deus, em que a bondade e a misericórdia pela humanidade têm sempre o primeiro lugar.
Esta consciência do dia consagrado ao Senhor é, ainda hoje, uma dinâmica fundamental para recordar a nossa humanidade e o lugar de Deus na nossa vida, algo que marca todas as nossas relações. Não somos deuses, mas pessoas sempre com alguma fragilidade, como recorda São Paulo, e nosso coração anseia por descansar em Deus, como afirma Santo Agostinho. Esta consciência do lugar do repouso é também apresentada pelo Papa Francisco, na encíclica Laudato Si', como uma necessidade ecológica, para nos fazer reconhecer o essencial da vida e formar um olhar contemplativo (LS 237). De facto, trata-se de dar espaço para reconhecer a ação de Deus no nosso mundo, tantas vezes agitado. Reparemos como no nosso tempo são tantos os que procuram propostas de descanso fora da vida da Igreja. Por excelência, a celebração da Eucaristia Dominical é ocasião de descobrir este repouso, seja na sua vivência litúrgica, seja no encontro com irmãos. Não nos privemos de repousar em Deus.
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