Wednesday, 31 December 2025

Uma paz desarmada e desarmante

 



 

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – SOLENIDADE

L 1 Num 6, 22-27; Sal 66 (67), 2-3. 5-6 e 8
L 2 Gal 4, 4-7
Ev Lc 2, 16-21

Um ano novo se inicia, nesta data em que se celebra o oitavo dia da Solenidade do Natal e que dedicamos à festa de Santa Maria, Mãe de Deus, dogma proclamado no Concílio de Éfeso, para afirmar precisamente a divindade de Jesus Cristo. Também neste dia, São Paulo VI dedicou, em 1967, o primeiro dia do ano como Dia Mundial da Paz. É também com este desejo de paz no coração que iniciamos este novo ano.

É difícil para nós pensar nesta época do ano e não nos lembrarmos do valor da paz, como singular dom de Deus.

A bênção aarónica que ouvimos neste dia, do Livro dos Números, é, segundo os estudiosos, o mais antigo manuscrito do século VII a.C. encontrado até hoje em placas de metal, o que retrata bem a sua importância. Este texto invoca o Senhor como Deus que ama o seu povo, para que o proteja, o abençoe, olhe para ele, o acompanhe e lhe conceda a paz. O sentido profundamente religioso deste texto está carregado da consciência de fé de que o Deus de Israel é um Deus próximo.

Nesta bênção tão antiga estão também os nossos desejos mais profundos: o desejo de ver a vida crescer e multiplicar-se no amor para com aqueles que nos rodeiam; o desejo de podermos sentir a presença e o olhar de Deus que cuida de nós, num tempo em que somos tocados por tantas dificuldades; e o desejo de nos ser dada a paz, não apenas como ausência de conflitos, mas sobretudo como aquela que nasce da justiça e do perdão. Creio que todos ansiamos por isto: amor, justiça e paz.

E, se olharmos com atenção, vemos como tudo isto já existe dentro do presépio, onde há lugar para todos. Este torna-se espaço para onde acorrem os pastores, os últimos da sociedade; são eles que, na sua simplicidade, contam o que ouviram e depois regressam louvando e glorificando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto. E vemos Maria, a Mãe de Deus, que no seu coração vai meditando e compondo tudo o que lhe sucede (symballousa = dialogando dentro de si), e onde ela se vai tornando também Rainha da Paz.

Ela escuta, ouve e guarda no seu coração tudo o que vai acontecendo; ou seja, vai compondo e não cai na tentação das respostas rápidas e fechadas. Tantas vezes queremos entender Deus de maneira apressada e fugidia! Maria surge como sinal de esperança, a ensinar-nos a discernir a ação de Deus. De facto, um coração purificado por Deus procura guardar a ação de Deus que passa na nossa vida, por perceber que Deus só pode abençoar.

Na mensagem que o Papa Leão nos deixou para este Dia de Ano Novo, ele retoma as primeiras palavras que dirigiu à multidão no dia em que foi eleito Sumo Pontífice: vem desejar-nos uma paz desarmada e desarmante, que, na sua tradição agostiniana, sabe que começa dentro do coração, como referia Santo Agostinho:
«Se quereis atrair os outros para a paz, tende-a vós primeiro; sede vós, antes de tudo, firmes na paz. Para inflamar os outros, deveis ter dentro de vós a luz acesa» (Agostinho de Hipona, Sermo 357, 3).

A paz começa dentro de nós, e o Papa recorda-nos que ela deve ser cultivada e não tratada apenas como um ideal distante, o que acaba por conduzir a uma realidade que a desvaloriza e permite que a agressividade, as divisões e a violência se espalhem, como vemos suceder no nosso mundo, onde assistimos ao rápido crescimento dos armamentos. A paz, desarmada e desarmante, à maneira de Jesus, começa dentro de nós.

Que, nas nossas comunidades paroquiais, a paz nos faça sempre reconhecer o dom do outro e desejar acolhê-la com ambas as mãos. Que a bênção de Deus nos alargue as fronteiras do coração e, como nos dizia São Leão Magno:
«É a paz que gera os filhos de Deus, alimenta o amor e cria a unidade. Ela é o repouso dos santos e a mansão da eternidade. E o fruto próprio desta paz é unir a Deus os que separa do mundo.»

 

No comments:

Post a Comment