SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – SOLENIDADE
L 1 Num 6, 22-27; Sal 66 (67), 2-3. 5-6 e 8
L 2 Gal 4, 4-7
Ev Lc 2, 16-21
Um ano novo se inicia, nesta data em que se celebra o oitavo dia da
Solenidade do Natal e que dedicamos à festa de Santa Maria, Mãe de Deus, dogma
proclamado no Concílio de Éfeso, para afirmar precisamente a divindade de Jesus
Cristo. Também neste dia, São Paulo VI dedicou, em 1967, o primeiro dia do ano
como Dia Mundial da Paz. É também com este desejo de paz no coração que
iniciamos este novo ano.
É difícil para nós pensar nesta época do ano e
não nos lembrarmos do valor da paz, como singular dom de Deus.
A bênção aarónica que ouvimos neste dia, do
Livro dos Números, é, segundo os estudiosos, o mais antigo manuscrito do século
VII a.C. encontrado até hoje em placas de metal, o que retrata bem a sua
importância. Este texto invoca o Senhor como Deus que ama o seu povo, para que
o proteja, o abençoe, olhe para ele, o acompanhe e lhe conceda a paz. O sentido
profundamente religioso deste texto está carregado da consciência de fé de que
o Deus de Israel é um Deus próximo.
Nesta bênção tão antiga estão também os nossos
desejos mais profundos: o desejo de ver a vida crescer e multiplicar-se no amor
para com aqueles que nos rodeiam; o desejo de podermos sentir a presença e o
olhar de Deus que cuida de nós, num tempo em que somos tocados por tantas
dificuldades; e o desejo de nos ser dada a paz, não apenas como ausência de
conflitos, mas sobretudo como aquela que nasce da justiça e do perdão. Creio
que todos ansiamos por isto: amor, justiça e paz.
E, se olharmos com atenção, vemos como tudo
isto já existe dentro do presépio, onde há lugar para todos. Este torna-se
espaço para onde acorrem os pastores, os últimos da sociedade; são eles que, na
sua simplicidade, contam o que ouviram e depois regressam louvando e
glorificando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto. E vemos Maria, a Mãe
de Deus, que no seu coração vai meditando e compondo tudo o que lhe sucede (symballousa = dialogando dentro de si), e
onde ela se vai tornando também Rainha da Paz.
Ela escuta, ouve e guarda no seu coração tudo
o que vai acontecendo; ou seja, vai compondo e não cai na tentação das
respostas rápidas e fechadas. Tantas vezes queremos entender Deus de maneira
apressada e fugidia! Maria surge como sinal de esperança, a ensinar-nos a
discernir a ação de Deus. De facto, um coração purificado por Deus procura
guardar a ação de Deus que passa na nossa vida, por perceber que Deus só pode
abençoar.
Na mensagem que o Papa Leão nos deixou para
este Dia de Ano Novo, ele retoma as primeiras palavras que dirigiu à multidão
no dia em que foi eleito Sumo Pontífice: vem desejar-nos uma paz desarmada e
desarmante, que, na sua tradição agostiniana, sabe que começa dentro do
coração, como referia Santo Agostinho:
«Se quereis atrair os outros para a paz, tende-a vós primeiro; sede vós, antes
de tudo, firmes na paz. Para inflamar os outros, deveis ter dentro de vós a luz
acesa» (Agostinho de Hipona, Sermo 357,
3).
A paz começa dentro de nós, e o Papa
recorda-nos que ela deve ser cultivada e não tratada apenas como um ideal
distante, o que acaba por conduzir a uma realidade que a desvaloriza e permite
que a agressividade, as divisões e a violência se espalhem, como vemos suceder
no nosso mundo, onde assistimos ao rápido crescimento dos armamentos. A paz,
desarmada e desarmante, à maneira de Jesus, começa dentro de nós.
Que, nas nossas comunidades paroquiais, a paz
nos faça sempre reconhecer o dom do outro e desejar acolhê-la com ambas as
mãos. Que a bênção de Deus nos alargue as fronteiras do coração e, como nos
dizia São Leão Magno:
«É a paz que gera os filhos de Deus, alimenta o amor e cria a unidade. Ela é o
repouso dos santos e a mansão da eternidade. E o fruto próprio desta paz é unir
a Deus os que separa do mundo.»

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